Margem esquerda apresenta problemas desde a década de 80

Linha de apoio: Antes de culpar a ação do homem pelos problemas de erosão e degradação do local é necessário conhecer a configuração geográfica da região

A época em que era possível fazer festas e jogar bola no quintal, no fundo de casa, já se foi e, junto com ela, também o espaço físico nos terrenos das casas que ficam na margem esquerda do Rio Itajaí-Açu, em Blumenau. O arquiteto Alfredo Lindner jr. conta que sua irmã tinha uma casa na margem esquerda, que foi construída respeitando o limite de 33 metros da margem, conforme orientado pela Marinha. Atualmente, a maioria das casas no local não possui nem 10 metros de terreno nos fundos e, algumas, ainda podem ser condenadas. Culpa de quem? Da ação impensada do homem? Da natureza? Ou dos dois? Há muita polêmica em torno do assunto. Porém, para Lindner não existe apenas um culpado, mas uma configuração geográfica complexa que atravessa o município de Blumenau.

Segundo dados, o arquiteto diz que não deve ter mais do que três casas construídas ao longo da margem esquerda de forma irregular. As outras obedeceram todos os trâmites e possuem escritura e averbamento. Ele lembra que o problema da margem esquerda não é novo. Na década de 80, quando houve duas grandes enchentes, o problema já existia. “Hoje, nos assusta ver a margem esquerda feia, sem vegetação e com erosão. Mas na década de 80 a situação não era muito diferente”, avalia.
Lindner explica que os solos ribeirinhos em todo o baixo Vale do Rio Itajaí Açu são sedimentares e muito frágeis, com baixo ou nenhum teor de matéria orgânica, o que provoca a cada cheia a sua erosão. “O desnível - sob a ponte central da Ponta Aguda – até a foz do rio em Itajaí é de menos de 50 centímetros, por isso o rio faz curvas acentuadas na planície até a foz. Antes da Avenida Beira-Rio ser implantada, a margem direita era igualmente atingida e várias edificações foram derrubadas. Quando temos enxurradas podemos dizer que a ação do homem é mais evidente. Mas, no caso de enchentes, particularmente na nossa região, é geográfico”, enfatiza.

“Se hoje temos a área central preservada é, em parte, devido às obras da margem direita”, diz.
O arquiteto lembra que, em 1880, - há 130 anos - ocorreu a maior enchente da história de Blumenau, com 17,10 metros. “Não temos como culpar os homens, naquela época não havia desmatamento, impermeabilização do solo e a população era diminuta”, recorda. Esse é um exemplo de que o problema é mais sério e difícil de resolver.

Em sua opinião, as enchentes fazem parte da história do Vale do Itajaí e não vão deixar de existir justamente devido à configuração da Bacia Hidrográfica do Rio Itajaí Açu. Porém, existem medidas que podem e devem ser tomadas para minimizar os efeitos. Segundo Lindner, é necessário também fazer uma diferenciação entre enchente e enxurrada. “Em 2008 tivemos enxurrada após precipitação pluviométrica excepcional de 500mm em 48h. A recorrência deste fenômeno admite-se ser de 600 anos, mas aí sim podemos dizer que boa parte dos prejuízos é resultado da ação impensada do homem. Mas nas enchentes não temos muito interferência. Porém, devemos adotar medidas para minimizar seus efeitos, como as sugeridas pelos especialistas japoneses que durante 15 meses fizeram todas as pesquisas, levantamentos, estudos e sugestões práticas”, avalia.

“O futuro das cidades do Vale do Itajaí e da sua população depende diretamente de medidas preventivas e a nossa obrigação como cidadãos é exigir permanentes investimentos públicos e planejamento urbano sustentável para viabilizar uma convivência pacifica entre o Homem e a Natureza”.

Retranca 2
Título
:Projeto tem por objetivo recuperar a margem
Independente da configuração geográfica, o fato é que algo precisa ser feito para a margem esquerda parar de desmoronar, o que pode levar a uma tragédia. Por este motivo, logo após a enchente deste ano, em setembro, o prefeito João Paulo Kleinübing, anunciou sua intenção de reativar o projeto de recuperação e drenagem da margem esquerda do rio Itajaí-Açu. Nas proximidades da Rua Uruguai e extensão, 20 edificações foram notificadas pela Prefeitura para desocupação imediata por apresentarem risco aos moradores e comerciantes da região. Outros 11 moradores são alertados quanto ao risco elevado em seus imóveis.
Logo após a enchente de 2008, a Prefeitura entregou ao Ministério das Cidades um projeto de intervenção e recuperação da margem esquerda do Rio Itajaí-Açu. Na época, o Governo Federal autorizou as obras, porém, o projeto foi vetado pelo Comitê da Bacia do Rio Itajaí-Açu. Depois da enchente de setembro, o prefeito João Paulo Kleinübing procurou o Ministério das Cidades para reaver os recursos para o projeto. Porém, dependia da aprovação do Comitê, que, em outubro, acabou aprovando a nova configuração do projeto.

O projeto foi apresentado aos 18 proprietários de locais interditados na Rua Uruguai. Eles conheceram o projeto e, principalmente, tiveram a garantia de que não vão perder suas casas se a obra for executada. O projeto prevê a regularização do curso do rio Itajaí Açu no trecho, a contenção da margem esquerda, a estabilização das áreas de terra, melhoria da drenagem e uma criação de um local para lazer e turismo.

DADOS PARA UM BOX
Margem Esquerda

Entenda o projeto de recuperação:
Após as chuvas de 2008, Blumenau assistiu a degradação da margem esquerda do rio Itajaí-Açu. Para administrar o problema, a Prefeitura propôs um projeto de drenagem e recuperação do trecho, compreendido entre a Ponte de Ferro e a Prainha, no Bairro Ponta Aguda.

A intervenção proposta era a execução de uma obra de engenharia semelhante à existente na margem direita (Beira Rio). Tratava-se da aplicação dos métodos de engenharia tradicionais que incluiriam um enroncamento com pedras na base da margem, logo acima uma capa de concreto e pedra e, em seguida, um retaludamento da encosta com aplicação de vegetação rasteira para preservação do meio ambiente no local. Também estavam previstos passeio e ciclovia.

Objetivos do projeto:

  • Regularização do curso da água do rio no trecho
  • Contenção da margem esquerda
  • Estabilização das áreas de terra que compõe a margem do Bairro Ponta Aguda
  • Melhoria do sistema de drenagem
  • Humanização da margem esquerda, contribuindo com a paisagem central
  • Criação de uma área de lazer, turismo e contemplação às margens do rio

Retranca 3
Estado pretende colocar em prática projeto elaborado pelo JICA

Paralelamente ao projeto da margem esquerda, de suma importância para a cidade de Blumenau, também está havendo uma movimentação dos municípios cortados pela Bacia do Rio Itajaí-Açu para colocar em prática estudo elaborado, a fundo perdido, por técnicos japoneses da JICA (Japan International Cooperation Agency), órgão do Governo japonês responsável pela implementação da Assistência Oficial para o Desenvolvimento (ODA), que apóia o crescimento e a estabilidade sócio-econômica dos países em desenvolvimento. Em outubro, o governador do Estado, Raimundo Colombo, junto com uma comitiva, esteve no Japão para formalizar o acordo para realização do projeto.

As medidas mitigatórias sugeridas pelo JICA foram elaboradas em função dos tempos de recorrência das enchentes, de acordo com as condições naturais, considerando períodos de 5, 10, 25 ou 50 anos. As propostas vão desde a contenção de águas de chuva em arrozeiras e construção de pequenas barragens, elevação de dois metros, da altura de barragens existentes, modificação de funcionamento das barragens da Celesc, regulamentação de usos do solo, controles de desenvolvimento nas áreas de planície fluvial, alargamento do leito, diques de contenção com elevação de ruas especialmente na margem direita, diques de derivação e a construção de um canal extravasador no município de Navegantes para evitar a recorrência de 50 anos e de diques para aumentar a capacidade de escoamento em Rio do Sul, Taió e Timbó.

Também está prevista no Plano Diretor, sugerido pelo Jica, a construção de nova barragem em Brusque e de um leito de inundação nas áreas de preservação no Ribeirão Garcia e Ribeirão da Velha. Todas as obras previstas no projeto requerem R$ 2 bilhões.

A JICA demonstrou a viabilidade econômica da implementação das propostas. Estudo das perdas em valor econômico – além das vidas em risco – mostrou que seria muito mais inteligente investir efetivamente em medidas preventivas, demonstrando que – dependendo da qualidade dos investimentos – o retorno pode ser em apenas um ano! O órgão japonês está disposto a emprestar o dinheiro necessário para a obra, com juros baixos e pagamento em longo prazo.

Esta é a primeira vez que o Estado faz um estudo com visão global das cidades do Vale do Itajaí. “Não podemos resolver o problemas de uma cidade isoladamente”, diz o secretario Estadual da Defesa Civil, Geraldo Althoff.
 


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