Não existem estilos, existe arquitetura

Alfredo Lindner Jr.

Na faculdade de arquitetura aprendí que não existem “estilos” em arquitetura. Foram lições de renomados mestres, vencedores de diversos concursos nacionais e internacionais de arquitetura – a malfadada Lei 8.666/93 ainda não existia e era proibido fazer licitações de preços de projetos, autores de mega-projetos como o do edifício sede da Petrobrás, no Rio de Janeiro e responsáveis pela revolução urbana de Curitiba. Os arquitetos, engenheiros e agrônomos tinham a sua Lei do Exercício Profissional – Lei 5.194/66, que proíbe a licitação de preços, sugerindo outras modalidades de contratação.

Pois bem, não existem estilos. Mas existe arquitetura. De cada época da vida humana, há milhares de anos.O que a História e o povo depois chama de estilo na verdade é como a vida da gente. Vivemos exatamente – a cada dia e a cada hora – o momento presente. Isto é a nossa Vida. Nem o que aconteceu ou poderíamos ter feito no passado e nem o que irá acontecer ou faremos no futuro. O passado serve para lembrar das coisas boas que fizemos e o futuro serve apenas para sonhar.

Entendo assim a Arquitetura. Arte de planejar espaços, com a tecnologia atual. Para a Vida do Ser Humano – morar, trabalhar, ter lazer, educar os filhos, se locomover.

Nestes últimos dias , vejo renascer–e acho extremamente positivo–a polêmica sobre o “estilo enxaimel”. Acho positivo porque envolve de forma absolutamente clara e muito forte uma das tendências do mundo moderno , o turismo. Quem não gosta das construções das pequenas cidades alemãs, muito agradáveis e extremamente humanas?. Quem não gosta das construções alemãs do Vale do Itajaí, maior reduto da América deste tipo de construção? Ainda que normalmente se faça uma ligação natural entre o Enxaimel e a Alemanha, a verdade é que o estilo não possui uma origem propriamente determinada. Embora seu desenvolvimento maior tenha sido, sim, neste país europeu e regiões vizinhas, especialmente no período renascentista, sabe-se que o povo etrusco, habitante da região da península itálica, já praticava a técnica no século VI a.C..

Além de fortes, as casas eram baratas e de construção simples. Outros estilos arquitetônicos também podem ser encontrados em Blumenau, como o estilo açoriano trazido pelos portugueses, o estilo italiano, o neo-clássico, o gótico e outros que se fundiram.

Blumenau luta para preservar seu passado histórico através da arquitetura, tentando restaurar e manter as casas mais antigas que têm apelo histórico. Para isto precisamos lutar. Pela preservação das construções antigas da cidade, sem a visão parcial de enxergar apenas as casas “enxaimel com tijolo a vista”, mas de enxergar todas as casas antigas que representam a história da cidade. E, principalmente, procurando entender que a arquitetura atual nada tem a ver com o estilo enxaimel usado há milhares de anos e até recentemente, há cerca de um século, na nossa região. Porque foi usado? porque as construções eram baratas, simples e fortes. Porque havia madeira em abundancia e a capacitação profissional da maioria das pessoas permitia lidar e trabalhar com estes materiais. Porque era a “tecnologia” da época.

Leio com tristeza a falta de entendimento básico de certas pessoas, achando que novas construções enxaimel devam ser mais incentivadas. Posso até não gostar do “paredão” que deu origem ‘a nova polêmica, mas não resolveria nada se aquela fachada fosse em “estilo enxaimel”. Ficaria pior. Posso até concordar que existam barreiras psicológicas e culturais na cidade, mas os paredões de vidro são exatamente o contrário de claustrofóbicos. E não matam os pobres passaros e aves da nossa cidade. O que seria das cidades se não houvesse um avanço acentuado na tecnologia dos vidros, reduzindo substancialmente a demanda por energia? Tanto nos paises frios quanto nos tropicais. O Musée du quai Branly, em Paris, inaugurado em junho de 2006 é um excepcional projeto do famoso arquiteto Jean Nouvel. Tem um paredão de mais de 200m2 de vidro na fachada, ao lado de um – incrível – paisagismo vertical.

Respeitar as tradições da cidade é preservar – de forma correta e adequada, com legislação mais adequada e com tecnicas mais planejadas – as construções antigas da nossa cidade. Não como está acontecendo na nossa Rua XV, com reformas altamente discutíveis, empregando materiais, cores e publicidade que nada representam da história de Blumenau. Com exceção do Castelinho – muito bem restaurado, aprovado pelo Conselho do Patrimonio Histórico – e do Teatro Carlos Gomes. Ou alguém concorda e acho “bonito” o paredão de enxaimel comercial que esconde a nossa belíssima Catedral de São Paulo Apóstolo?

Voces já imaginaram “abrir” a vista da Catedral para a Rua XV e criar um conjunto arquitetonico com o Castelinho e com a área – felizmente declarada de utilidade pública – do Bude? Parabéns ao então diretor do IPPUB e ao atual secretário da SEPLAN. É de extrema importancia para o futuro da cidade. O Moinho da Vale, quando reaberto, será outro exemplo de como pode e deve ser encarada a arquitetura urbana da cidade de Blumenau. Posso dizer isto porque não tenho a menor participação nestes projetos, com exceção do Bude, que há alguns anos foi impedido de aprovar uma construção de 3 ou 4 pavimentos – falso enxaimel - pelo Conselho de Planejamento Urbano da Prefeitura. Desta decisão participei, felizmente.


Artigo publicado no Jornal de Santa Catarina

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